resenha

Livro Outros Brasis da Ficção Científica (org. Davenir Viganon)

Publicado pela Caligo Editora em 2020, O livro Outros Brasis da Ficção Científica pretende mostrar, nas palavras do organizador  Davenir Viganon “que a ficção científica escrita no Brasil apenas tem a ganhar quando decide trilhar por nosso país. Contar suas histórias, imaginando seu próprio futuro, através do seu povo, com as mais diversas vozes e formas de ser brasileiro. A ficção científica não é apenas sobre naves espaciais, robôs e pistolas de raios laser, muito menos mero escapismo barato. É feita por construtores de sonhos lúcidos e o Brasil precisa sonhar os próprios sonhos. Sonhar com quantos outros Brasis a nossa imaginação nos puder levar.”

O projeto da Caligo Editora foi ambicioso: trazer um panorama da atual Ficção Científica brasileira. Para organizar essa antologia, chamaram alguém que, além de curtir demais FC, também possuía um conhecimento a respeito do tema e reconhecesse a brasilidade nas histórias que comporiam o livro. O escolhido como organizador foi Davenir Viganon, do blog Wilbur D. e do canal Diário de Anarres, que convidou 6 escritores brasileiros de FC: Claudia Dugim, Fabio Fernandes, Lady Sybylla, Lu Ain-Zaila, Luiz Bras, Ricardo Celestino – o próprio Davenir fechou a sétima obra dessa base inicial. Depois, abriu-se um concurso que recebeu mais de 100 trabalhos, de onde foram selecionados 7 outros autores.

Para apresentar uma resenha completa do livro, achei por bem entrevistar o organizador — e também escritor — Davenir Viganon, que prontamente atendeu meu pedido. Aqui vai:

PERGUNTA: Uma das coisas que me atraiu para a coletânea foi a seleção inicial de convidados, gente como Luiz Bras e Lady Sybylla, por exemplo. De certo modo, a presença de autores mais consagrados ajuda a estabelecer uma “ponte” para os novos nomes, criando uma conexão entre gerações diferentes de escritores. E por falar em pontes, você acha que a geração mais nova de leitores tem interesse na FC nacional? 

RESPOSTA: Acredito que há um aumento no interesse dos novos leitores na literatura fantástica em geral, e a FC entra como uma parte dessa maré. Infelizmente, sempre atrás de outros gêneros como a Fantasia e o Terror/Horror. Acredito que isso se deve ao mercado de FC aqui estar muito mais agarrado aos seus clássicos que os outros gêneros do fantástico, apesar dos esforços de renovação dos autores e editoras menores. Aliás, meu otimismo está depositado justamente nos lançamentos de editoras pequenas.

P: A principal característica dessa coletânea, como o nome já diz, é sua afirmação de enaltecer a FC brasileira, algo maravilhoso e necessário, em especial para fortalecer nosso mercado. Mas a pergunta polêmica é: na sua opinião, o escritor nacional de FC precisa falar do Brasil em suas histórias?

R: Na versão mais curta: Sim! Quando a Bia Machado (editora da Caligo) e eu estabelecemos que os contos teriam que ser sobre o Brasil, era justamente sobre essa necessidade de conversar mais com o Brasil nas nossas próprias histórias. Temos uma relação diferente com a tecnologia e características próprias que não precisam e nem devem ficar fora de nossas extrapolações na FC. A nossa baixa autoestima (complexo de vira-latas) e a vida periférica do brasileiro não deve limitar as possibilidades de criar o maravilhamento nas histórias e numa avaliação posterior, esse objetivo foi cumprido com muito exito pela antologia.

P: A impressão que tenho, após ter lido Outros Brasis, é de que a FC nacional é ainda mais diversificada do que eu supunha: história com aldeias indígenas futuristas, tecnologias para saciar o apetite sexual, desigualdade social causada pelo acesso à biotecnologia, viagens no tempo, a luta dos afrodescendentes aqui na Terra e chegando em Marte, um robô defendendo seu gênero neutro… Mas a pergunta que fica é: você acha que as editoras tradicionais estão preparadas para essa FC ousada que temos nos contos? Afinal, as grandes continuam relançando insistentemente Isaac Asimov e Arthur C. Clarke, por exemplo. Além de ser FC estrangeira, falamos de livros escritos há mais de 50 anos…

R: As editoras grandes, como a Aleph, vivem em uma realidade separada das editoras pequenas. Tentam sobreviver numa zona de conforto e isso não é exclusividade de quem publica FC e quando a crise aperta, elas fazem apenas o caminho mais seguro: reimprimir clássicos. Entendo que é uma questão de manter a editora aberta ou não. A renovação tem ficado a cargo das editoras pequenas, mesmo que uma parte delas também apele muitas vezes para edições de luxo de clássicos em domínio público. Não podemos esperar que as grandes editoras, reféns da crise e do mercado, cometam a ousadia de lançar obras novas e mostrar a diversidade. E apesar do espaço que estejam ganhando, vão trabalhar à margem por um bom tempo, ainda.

P: A iniciativa de Outros Brasis foi muito bem sucedida — a campanha do Catarse que o diga — e vi que o livro também teve boas críticas pelo fandom. Isso te animou a novas empreitas literárias? O que podemos esperar agora?

R: Ficamos muito animados com o sucesso de Outros Brasis da Ficção Científica, a editora e eu. Tanto que a Caligo criou um selo para novos volumes de Ficção Fantástica, a Outros Brasis Fantásticos. O segundo volume, está em processo de edital para selecionar contos e terá uma pegada Steampunk. Estou organizando agora a Outros Brasis da Ficção a Vapor que vai manter o subtema Brasil e vai abrir o leque para a Fantasia, Terror, História Alternativa, além da Ficção Científica, para não ficar restrito demais e estou animado com o que li até agora nesta fase de avaliação. Quanto a mim, estou trabalhando paralelamente em uma série de Steamfantasy, Fantasia com Steampunk e reformulando contos antigos pois é minha forma preferida de trabalhar a literatura.

RESENHA DOS CONTOS

O livro contém 14 contos, de autores bem diferentes, alguns com propostas bastante ousadas. Elaborei uma análise curta, como deve ser, mas tentei trazer à tona os temas e inquietações suscitadas por cada leitura. Imagino que seja uma boa forma para despertar a curiosidade e a imersão nessas histórias fantásticas:

Atlantic | Lady Sybylla

Nessa história intrigante, acompanhamos Gislaine, que assiste, cada vez mais incrédula, as operações da empresa de comércio eletrônico “Atlantic”, recém chegada ao Brasil. E a megacompanhia vende de tudo: de livros a óleo para bebê, passando por armas de fogo e até mesmo brinquedos eróticos. Para Gislaine isso era apenas outra onda consumista, mas quando surge uma nova campanha chamada “remessa antecipada”, as coisas ficam realmente estranhas: as pessoas, em todo mundo, são surpreendidas com presentes…e não objetos aleatórios, mas coisas que elas só se dão conta de que precisavam quando recebem o pacote. O que você faria se recebesse uma encomenda que não pediu? Com um estilo ágil e fluido, o conto desafia o leitor a solucionar um quebra-cabeça estranho, com toques de humor e um excelente clima de seriado “Além da imaginação”. A escritora Lady Sybylla, que mantém o site Momentum Saga, é autora de inúmeras obras, como o “Deixe as Estrelas Falarem”.

Álcool, formigas e um punhado de colhões | Rafael Sollberg

Em um mundo arrasado e entregue à anarquia e à barbarie, conhecemos Teçá III, líder dos “Neoguaranis”, um herói bem diferente do que estamos acostumados a ver na ficção científica tradicional. Nessa terra pós-apocalíptica, ninguém é mais perigoso que Jacko Rodriguez, que em seu trono na taverna dos “Sagrados Pecadores”, mantém um exército de seguidores, graças à sua fábrica de uísque, talvez a última do planeta. Mas entre os belicosos grupos de “Neoguaranis” e “Pecadores” existe uma força ainda mais perigosa: as mulheres guerreiras lideradas pela implacável Lady Kleidiane, que não exita em matar qualquer homem que entre em seus domínios. O conto nos propõe, para além do embate desses personagens, o desafio de pensar a brasilidade com novas possibilidades, novas crueldades e esperanças diferentes. É um texto recheado de referências é por isso nos obriga a uma leitura atenta, para não perdermos nenhum desses sabores. Sollberg é integrante do podcast “Esculachos Cacofônicos” e também do canal de literatura “Adorei! Nota2”, do YouTube.

O bará de Marte | Davenir Viganon

O jovem Aloísio trabalha como entregador, numa luta diária para levantar uns trocados. Ele é apaixonado por Lininha e faz o possível para melhorar de vida, a fim de assegurar um futuro para ambos; mas está difícil. Diante dessa premissa, tão familiar para nós  brasileiros, o autor transporta esses personagens para um outro tempo, nos oferecendo um olhar curioso sobre uma Porto Alegre futurista. Mas os avanços tecnológicos que vemos não criam uma utopia. Pelo contrário, essa visão premonitória revela uma cidade caótica e ainda mais desigual que nos dias de hoje, com seus trabalhadores autônomos, sobrevivendo em condições precárias, apartados da elite, segregados dos centros e dos condomínios luxuosos. A periferia tomada de favelas continua existindo, abarrotada de excluídos, pobres e marginais. E para acentuar o caos desse mundo doente, ficamos sabendo que também contaminamos Marte com nossas doenças sociais, transformando o planeta vermelho em um estado totalitário. Mas há resistência e esperanças… O Bará, para as religiões de matriz africana, é o orixá que tem o poder de abrir caminhos. O conto se desdobra com uma tensão crescente, assumindo a agilidade de um thriller. O escritor Davenir Viganon é criador do blog Wilburd Contos e também do canal Diário de Anarres no YouTube. 

O pênis de Apolo | Romy Schinzare 

Bactérias super resistentes, vírus mutantes que driblam qualquer remédio ou vacina, pandemias mundiais… Não é difícil imaginar que todos esses males atuais possam continuar a ser também os flagelos do futuro. É o que nos propõe o conto de Schinzare, ao dar um pequeno vislumbre do que será a vida cotidiana em um mundo onde o medo de ser infectado por algo mortal vai restringir ao máximo o contato entre as pessoas. Assim, não é de surpreender que os cientistas da ONUS (Organização das Nações Unidas do Sexo) tenham decretado o sexo entre humanos como algo perigoso, e portanto, ilegal. Mas quem pode viver sem sexo? Os primeiros oportunistas a lucrar com essa tragédia, obviamente, são os empresários vorazes que logo inundam o mercado com produtos para “um prazer seguro”. É nesse mundo que acompanhamos a “dona” Flávia, uma típica consumidora que acredita nas promessas de felicidade que vê nas propagandas. Com muito bom humor, o texto direto de Romy promove excelentes críticas sociais, sem deixar de entregar um mistério que ficamos ávidos para solucionar ao final. A escritora Romy Schinzare é autora dos livros “Mandrágora” e “Contos Reversos”, além de inúmeros contos em antologias.

Em busca do espaço perdido | Fábio Fernandes 

João é um típico sujeito de classe média, trabalha em um grande jornal, está preocupado com o futuro e quer votar bem para presidente nas próximas eleições, principalmente em um cenário polarizado. Parece familiar? Mas o mundo do conto é outro, num Brasil futurista ainda mais diversificado de etnias e radicalizado por desigualdades sociais. Mesmo assim, João tem muitas certezas e acredita que a solução para os problemas brasileiros está ao alcance do voto. Mas seu mundo seguro está prestes a ser abalado por Maria, sua recém-descoberta “vizinha”. De fato, João e Maria moram em apartamentos superpostos no mesmo local, mas separados graças à novíssima tecnologia transdimensional. Ao conhecer a bela — e um tanto subversiva — Maria, os conceitos de João sobre arte, estilo de vida e até mesmo sobre o que é a realidade, irão mudar radicalmente. Com um excelente domínio da prosa, o escritor Fábio Fernandes inunda as poucas páginas de seu conto com uma infinidade de referências (arte, cultura pop, cinema, sci-fi clássico e moderno), além de tecer sua crítica ácida à política brasileira, colecionadora de “salvadores da pátria”. Fernandes é autor de “Os dias da Peste” e “Back in the URSS”, além de contos, como na coletânea recém lançada no Reino Unido “Love: an Archaeology”.

As engrenagens de um coração | Maria Eduarda Amadeu 

Em um Brasil futurista, mas teimosamente desigual, acompanhamos Camila, uma jovem suburbana que luta para ganhar o pão de cada dia. Na TV, assistimos uma presidente magrela e severa explicar, sem embaraços, que o país está quebrado — sempre culpa do Governo anterior, eu quase posso ouví-la acusar— é que não há verbas para manter programas assistenciais como o CoNaH, que facilita o acesso dos mais pobres à caríssima biotecnologia para reposição de órgãos artificiais. Os dilemas do futuro não são muito diferentes dos de hoje: vive mais que pode pagar por uma boa assistência médica. Mas em um país onde a distância entre ricos e pobres aumenta a cada dia, o tempo e a tecnologia podem criar um tipo novo de desigualdade, um lugar onde os pobres morrem desassistidos é a nova elite se encastela na imortalidade, tornando-se verdadeiras “deidades da nova tecnocracia”. Soa horrível? Então olhe à sua volta com atenção porque isso já está acontecendo. Maria Eduarda Amadeu escreve com a desenvoltura de uma veterana, com leveza boa dose de empatia. Ela é fundadora da Academia Internacional de Mulheres das Letras e administra as contas  @abookpercup e @corvoliterario.

Um taura e seu carma quântico | Gilson Cunha 

Alfredo Dantas Fagundes é um típico brasileiro, nasceu em Soledade, Rio Grande do Sul e ganhava a vida fazendo frete com sua Kombi 1963, batizada carinhosamente de “Cremilda”. Bem, essa VW é mesmo “pau para toda obra”, principalmente quando distorce o tecido do espaço-tempo e precisa acelerar pra valer na hora de vencer uma eventual supercorda extradimensional pelo caminho. Parece estranho? Pois você não viu nada, inocente. Dos confins do universo, passando por seres primordiais até o escaldante Outback australiano de 13 mil anos antes de Cristo, a história de Alfredo é uma montanha russa de entrevero quântico, com acontecimentos fantásticos, assustadores e muitas vezes engraçados. A escrita de Gilson Cunha trás saborosas referências aos clássicos mais extravagantes de Ficção Científica, como “O guia do mochileiro das galáxias”, além de “Star Trek” e “Túnel do Tempo”. Gilson é autor do livro “Onde kombi alguma jamais esteve”, vencedor do prêmio Argos 2020.

Sobre a fé de um andante que teve a cara mastigada | Ricardo Celestino 

Em algum lugar de São Paulo, num complexo comunitário na Orbe Sul, os prédios populares são atarracados e possuem apenas quatro andares, nada de elevador, é claro. Cada apartamento é um diminuto espaço em que quarto, sala e cozinha são uma coisa só e a única divisão possível é para o banheiro. Essa descrição, muito familiar a qualquer pobre de centro urbano, é palco de uma insólita e tenebrosa história envolvendo um trabalhador que acaba atrasando o pagamento de seu aluguel. Mas no futuro essa dívida pode acarretar consequências muito mais terríveis que o simples despejo, principalmente em uma cidade faminta. Ricardo Celestino entrega uma trama visceral e chocante, que retira o leitor de sua zona de conforto, tanto pela violência quanto pela subversão da própria estrutura gráfica em que o texto se apresenta. Celestino é autor do livro “Até que a brisa da manhã necrose teu sistema”, além de contos nas antologias “Eros ex-machina” e “2048: mundos cyberpunks”. 

Flores em Marte | Claudia Dugim 

Sakandid e Patusi formam um jovem e apaixonado casal que vive a batalha diária para ter um futuro melhor, juntando uma grana, quem sabe até para sair da colônia de “Resistência” e conseguir uma casa melhor em “Nova Brasília”, a capital latina-americana de Marte. Mas a rotina de Sak pode mudar por completo ao conhecer NIS, uma inteligência artificial curiosa e sociável, que parece ter muito interesse em fazer uma nova amizade. Seriam essas as reais intenções de NIS, esse curioso manobot, com seu corpo circular e seus oito poderosos braços de titânio? Com muita sensibilidade, Claudia Dugim nos convida para um mundo futurista muito diferente do nosso, porém, com personagens que sonham as mesmas coisas que todos, todas e todes sonham desde sempre: amar e ser feliz. Claudia Dugim escreveu contos premiados e editou as coletâneas “LGBTQIA+” e “Violetas Unicórnios Rinocerontes”. É autore do romance “Matando Gigantes”.

A reunião | Daniel Borba 

Em um encontro com a alta cúpula do Governo, um beligerante Presidente descarrega bravatas e palavrões em seus subalternos. Parece familiar? Assistir um chefe de estado agir como um bêbado falastrão em uma reunião com seus ministros e assessores deveria causar estranhamento ou pelo menos boas risadas, como no filme “Bananas” de Woody Allen em que vemos um ditador fazer trapalhadas pois não tinha a menor vocação para o papel. Mas o retrato do pseudo-estadista que Daniel Borba nos mostra é por demais trágico para rirmos o tempo todo. Mas não se preocupem pois vocês darão risadas assim mesmo, essa é a magia da literatura. Borba escreveu inúmeros contos e organizou a coletânea “2013: Ano Um”. Também mantém o blog “Além das Estrelas”.

Solarys | Luiz Bras 

A vida no futuro não será fácil, principalmente quando o ser humano for destituído de seu posto de predador-mor da Terra. Os devoradores de homens agira dominam a paisagem, um lugar retomado pela natureza, em que vegetações exuberantes suplantaram as ruas e as cidades. Entrincheirados em um velho edifício, um grupo de sobreviventes se prepara para um derradeira e perigosa tentativa de fuga: é chegada a hora da grande corrida! A escrita de Luiz Bras dificilmente pode ser definida em poucas palavras. Aliás, as palavras são a chave para saborear a literatura proposta pelo autor. A criação literária de Bras extrapola, e muito, as convenções que estamos acostumados e o gênero fantástico é apenas um elemento motriz para acelerar seu dínamo de ideias, sons, sensações e texturas. Luiz Bras coordena oficinas literárias e já publicou diversos livros, entre eles “ Distrito Federal”, “Sozinho no deserto extremo” e “Pequena coleção de grandes horrores.

Seis letras | Lu Ain-Zaila 

Parecia mais um dia comum. Em uma praça, homens e mulheres se apressam para tomar conta de suas responsabilidades e tarefas, todos a cuidar da própria vida. Mas a rotina da sobrevivência diária não é a mesma para todos, principalmente se você mora no Brasil, um lugar onde a desigualdade social já se tornou uma espécie de doença incurável que submete os negros, os pobres a as minorias a todo tipo de flagelo permanente. O mais tenebroso é perceber como esses males tornam-se corriqueiros e aceitos, normalizados por um mar velado de racismo, preconceito e indiferença pelo próximo. É como um ciclo permanente que se retroalimenta, uma ecologia do mal: o preconceito exalado pelas pessoas sublima até se condensar em nuvens de ódio, que se precipitam sobre nossas cabeças, enchendo-as novamente de maldade. Por isso, “a chuva… a chuva antes da chuva está vindo!” Lu Ain-Zaila fala de muitos temas “espinhudos” em sua história, mas o que realmente surpreende é à aproximação que faz do racismo ao “Horror cósmico” literário. A autora é conhecida por suas obras afrofuturistas, como a Duologia Brasil 2048 – (In) Verdades e (R) Evolução.

Temos nosso tempo | Rubens Angelo

Fazer uma resenha do meu próprio conto não faz sentido. Assim, vou aproveitar a oportunidade para explicar os bastidores da construção do texto, que nasceu em 2018, quando participei de um concurso literário para a “Antologia Resistência: eu resisto”. Minha ideia foi criar uma história para o público LGBTQIA+ em um cenário de Ficção científica — um gênero literário costumeiramente dominado por personagens masculinos e de pouca inclusividade. O desafio foi criar a personagem Kayra (uma menina trans) como uma protagonista natural do conto, não por ações heróicas, mas aproximando-a o máximo possível do leitor. Meu conto não foi aceito na coletânea de 2018 e só foi redescoberto agora, graças ao “Outros Brasis”. Como esse foi o texto que mais tive leitores beta, é a obra de que tenho mais orgulho, mesmo admitindo que a história pareça ingênua ou demasiado otimista em alguns pontos. Talvez isso ocorra porque sempre fui viciado em fábulas, um gosto anterior ao meu amor pela FC. No final das contas, minha ideia era falar sobre o amor e acho que nesse ponto fui bem sucedido. Nas palavras gentis do organizador da coletânea, o Davenir Viganon, a “história contrapõe um mundo seco de amor em um Brasil naufragado.” É isso.

Remontagem | Gabriel C. Correia

O Governo Central Brasileiro está cada dia mais preocupado com a nação, não medindo esforços para saber tudo sobre cada cidadão, mesmo que isso signifique vigiá-lo 24 horas por dia. Imagine a possibilidade de que as tecnologias de monitoramento evoluam ao ponto de serem capazes de vigiar pensamentos. Parece impossível? Talvez isso seja apenas uma ficção, mas é bom nos atentarmos que esse é um sonho autoritário que sempre existiu, basta lembrar da “ThinkPol”, nis termos da novilíngua do livro 1984 de George Orwell. A Polícia do Pensamento é o sonho de qualquer ditadura e o Brasil sempre teve inclinações para regimes autoritários — basta abrir qualquer rede social e ver a quantidade de viúvos e viúvas do Golpe de 64. Diferente da história de Orwell, Gabriel Correia nos apresenta um herói (ou heroína) bem mais combativo, na figura andrógina de Dr. Kokotkin, que não apenas resiste, mas luta contra o sistema com tudo que tem: loucura, sexo e muita astúcia! O texto de Correia é, por si só, uma aventura de se ler. É impossível ficar indiferente a deliciosos neologismos como “burgouniversitalóide”, “Tortugatório” e “prostipansexoides”… desculpe, não poderia deixar de fora a cidade de “SampaCola”.

SOBRE O LIVRO

A edição pode ser adquirida no site da Caligo Editora, além da Amazon.

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